Entre ilhas, manguezais e áreas remanescentes de Mata Atlântica, o papagaio-de-cara-roxa encontra um dos últimos refúgios da espécie. Em Guaraqueçaba, pesquisadores, moradores e organizações locais trabalham juntos para garantir a sobrevivência dessa ave ameaçada.
A ESPÉCIE
O papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis) é uma espécie endêmica da Mata Atlântica, hoje restrita a uma pequena faixa litorânea do sul de São Paulo e do Paraná. No passado, ocorria até o litoral norte do Rio Grande do Sul, de onde já foi extinta, assim como de Santa Catarina.
Sua população vem aumentando nos últimos anos graças ao trabalho de conservação realizado pela Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem (SPVS), que registrou 9.112 indivíduos em 2018 — o segundo maior número já contabilizado.
Também conhecido como chauá, pode ser confundido com o Amazona rhodocorytha, espécie ameaçada que ocorre mais ao norte. Em campo, sua identificação é facilitada pela vocalização estridente, frequentemente ouvida nas baías de Laranjeiras e Paranaguá: “CRICRI-CRACRA”.
IDENTIFICAÇÃO COMPARATIVA:
Em voo, o bater rápido das asas e o deslocamento direto revelam a presença dos papagaios. A vocalização estridente ajuda a identificar a espécie.
PROJETO
O trabalho de conservação do papagaio-de-cara-roxa começou em 1998, no litoral norte do Paraná, quando pesquisadores passaram a acompanhar de perto a população da espécie em uma região onde ela ainda resistia. Desde 2013, esse esforço também se estende ao litoral sul de São Paulo.
Conduzido pela Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), o projeto envolve o manejo de indivíduos, o monitoramento anual da população e pesquisas que ajudam a compreender melhor o comportamento e as necessidades da espécie.
Parte essencial desse trabalho acontece fora da mata. Equipes percorrem escolas, conversam com moradores e orientam visitantes sobre a importância de proteger o papagaio-de-cara-roxa e o ambiente onde ele vive. Peças de teatro, exposições fotográficas e até um livro infantil sobre a espécie fazem parte dessas iniciativas de aproximação com a comunidade.
Elenise Sipinski (Tise), coordenadora do projeto, e funcionários da SPVS executando o monitoramento de ninhos na Ilha Rasa - Guaraqueçaba.
A caminho da Ilha Rasa
A Ilha Rasa, localizada na Baía de Laranjeiras, é a principal área de nidificação do cara-roxa. O acesso é feito geralmente a partir da Reserva Papagaio-de-cara-roxa, também da SPVS, localizado na comunidade de Tagaçaba. A ilha fica a poucos minutos da foz do rio de mesmo nome, na Baía de Laranjeiras.
A Ilha Rasa, localizada na Baía de Laranjeiras, é a principal área de nidificação do cara-roxa. O acesso é feito geralmente a partir da Reserva Papagaio-de-cara-roxa, também da SPVS, localizado na comunidade de Tagaçaba. A ilha fica a poucos minutos da foz do rio de mesmo nome, na Baía de Laranjeiras.
A Ilha
Como o nome da ilha sugere, ela não possui grandes elevações, fazendo com que grande parte do seu território seja alagável. Sua cobertura vegetal é de restinga alta, bastante característica, com muitos musgos e bromélias no solo, além de altas árvores características desse ecossistema.
Como o nome da ilha sugere, ela não possui grandes elevações, fazendo com que grande parte do seu território seja alagável. Sua cobertura vegetal é de restinga alta, bastante característica, com muitos musgos e bromélias no solo, além de altas árvores características desse ecossistema.
Guanandi
Dentre as grandes árvores dessa restinga alta de planície alagável se destaca o Guanandi. Não somente o seu tamanho chama a atenção, mas especialmente sua preferência pelos papagaios na montagem do ninho, que chega a passar dos vinte metros de altitude do solo.
Dentre as grandes árvores dessa restinga alta de planície alagável se destaca o Guanandi. Não somente o seu tamanho chama a atenção, mas especialmente sua preferência pelos papagaios na montagem do ninho, que chega a passar dos vinte metros de altitude do solo.
Guaperuvu
Nos locais não alagáveis, o Guanandi não se desenvolve, mas o Guaperuvu, uma das mais vistosas árvores da região, ocupa o seu lugar como árvore ninho dos papagaios-de-cara-roxa. No caso da população de São Paulo, também é comum vê-los fazendo ninhos em Jerivás, a alturas bem menores do que os ninhos encontrados em Guanandis e Guaperuvus.
Nos locais não alagáveis, o Guanandi não se desenvolve, mas o Guaperuvu, uma das mais vistosas árvores da região, ocupa o seu lugar como árvore ninho dos papagaios-de-cara-roxa. No caso da população de São Paulo, também é comum vê-los fazendo ninhos em Jerivás, a alturas bem menores do que os ninhos encontrados em Guanandis e Guaperuvus.
Ninhos Naturais
A queda de troncos é bastante comum após as frequentes tempestades da região. Especialmente nos Guanandis, a queda do tronco costuma gerar buracos nas árvores, os quais são utilizados pela espécie para nidificação. O cara-roxa bota de 1 a 4 ovos por ninhada, sendo difícil a sobrevivência de todos em uma ninhada maior.
A queda de troncos é bastante comum após as frequentes tempestades da região. Especialmente nos Guanandis, a queda do tronco costuma gerar buracos nas árvores, os quais são utilizados pela espécie para nidificação. O cara-roxa bota de 1 a 4 ovos por ninhada, sendo difícil a sobrevivência de todos em uma ninhada maior.
Ambiente de bromélias
A mesma planície alagável que possibilita o crescimento do Guanandi propicia também uma paisagem bem diferente da dos demais ecossistemas, mesmo dentro da Mata Atlântica. As bromélias tomam conta da paisagem, não se limitando somente aos troncos de grandes árvores, mas nascendo desde o chão até a parte mais alta da floresta.
A mesma planície alagável que possibilita o crescimento do Guanandi propicia também uma paisagem bem diferente da dos demais ecossistemas, mesmo dentro da Mata Atlântica. As bromélias tomam conta da paisagem, não se limitando somente aos troncos de grandes árvores, mas nascendo desde o chão até a parte mais alta da floresta.
"Seu Antônio"
Seu Antônio, nativo da região e morador da Ilha Rasa, é funcionário da SPVS desde o início do projeto e conhece as trilhas e a localização dos ninhos melhor do que ningúem. No período de inverno, quando os papagaios não estão se reproduzindo, ajuda no monitoramento dos ninhos artificiais e naturais, além de observar o comportamento da espécie.
Seu Antônio, nativo da região e morador da Ilha Rasa, é funcionário da SPVS desde o início do projeto e conhece as trilhas e a localização dos ninhos melhor do que ningúem. No período de inverno, quando os papagaios não estão se reproduzindo, ajuda no monitoramento dos ninhos artificiais e naturais, além de observar o comportamento da espécie.
Rapel no Guanandi
"Leco" também é morador da Ilha Rasa e trabalha na proteção do papagaio-de-cara-roxa pela SPVS há cerca de vinte anos. Na foto, Leco faz rapel no Guanandi para recolher um filhote do ninho artificial para os fins de monitoramento. .
"Leco" também é morador da Ilha Rasa e trabalha na proteção do papagaio-de-cara-roxa pela SPVS há cerca de vinte anos. Na foto, Leco faz rapel no Guanandi para recolher um filhote do ninho artificial para os fins de monitoramento. .
O Monitoramento
Os filhotes são recolhidos rapidamente dos ninhos, sejam eles naturais ou artificiais, com o intuito de terem sua saúde monitorada, bem como se obter dados e estatísticas a respeito da reprodução.
Os filhotes são recolhidos rapidamente dos ninhos, sejam eles naturais ou artificiais, com o intuito de terem sua saúde monitorada, bem como se obter dados e estatísticas a respeito da reprodução.
Os Pais
Na espécie, tanto o macho quando a fêmea costumam cuidar do ninho e, algumas vezes, os pais ficam nas redondezas observando os filhotes enquanto são recolhidos. Aguardam a devolução do filhote ao ninho para o alimentar, fazendo sempre bastante barulho. São tomados os devidos cuidados para que não haja abandono do ninho após a manipulação do filhote, como por exemplo a não utilização de produtos químicos, como repelente ou protetor solar ao manipular a ave.
Na espécie, tanto o macho quando a fêmea costumam cuidar do ninho e, algumas vezes, os pais ficam nas redondezas observando os filhotes enquanto são recolhidos. Aguardam a devolução do filhote ao ninho para o alimentar, fazendo sempre bastante barulho. São tomados os devidos cuidados para que não haja abandono do ninho após a manipulação do filhote, como por exemplo a não utilização de produtos químicos, como repelente ou protetor solar ao manipular a ave.
O filhote
Para tornar o processo o mais rápido possível e não prejudicar a ave, o filhote é descido por meio de um saco de tecido, onde ele fica tranquilo e não corre o risco de se machucar.
Para tornar o processo o mais rápido possível e não prejudicar a ave, o filhote é descido por meio de um saco de tecido, onde ele fica tranquilo e não corre o risco de se machucar.
Interação
Os filhotes com poucos dias de vida são tranquilos e curiosos e interagem um pouco melhor durante o monitoramento. Seu bico ainda não é tão duro quanto quando adulto, e sua bicada não oferece risco.
Os filhotes com poucos dias de vida são tranquilos e curiosos e interagem um pouco melhor durante o monitoramento. Seu bico ainda não é tão duro quanto quando adulto, e sua bicada não oferece risco.
Desenvolvimento
Os filhotes são acompanhados durante todo o seu crescimento, sendo sempre manipulados com luvas, evitando qualquer contágio. Após os tarsos terem já se desenvolvido, os indivíduos são anilhados com aneis numerados. Sua identificação é anotada para fins de identificação em possíveis encontros posteriores.
Os filhotes são acompanhados durante todo o seu crescimento, sendo sempre manipulados com luvas, evitando qualquer contágio. Após os tarsos terem já se desenvolvido, os indivíduos são anilhados com aneis numerados. Sua identificação é anotada para fins de identificação em possíveis encontros posteriores.
Coleta de sangue
Coleta de sangue realizada em Dezembro de 2016 com o intuito de verificar a presença de possíveis doenças. Os resultados foram bastante positivos, e os indivíduos não apresentaram a ocorrência dos vírus estudados.
Coleta de sangue realizada em Dezembro de 2016 com o intuito de verificar a presença de possíveis doenças. Os resultados foram bastante positivos, e os indivíduos não apresentaram a ocorrência dos vírus estudados.
Semi-adulto
Quando maiores, os filhotes já oferecem um pouco de risco através de seu bico curvo e bastante duro, exigindo uma manipulação mais cautelosa. Quando prontos para voar, eles também já são bem mais arredios e as vezes até agressivos.
Quando maiores, os filhotes já oferecem um pouco de risco através de seu bico curvo e bastante duro, exigindo uma manipulação mais cautelosa. Quando prontos para voar, eles também já são bem mais arredios e as vezes até agressivos.
Pronto para alçar voo
Quando estão bem desenvolvidos, o que demora pouco mais de 40 dias após a eclosão do ovo, os pais diminuem a quantidade de alimento, forçando o filhote a sair do ninho em busca de alimentação, além de proporcionarem o seu emagrecimento, o que facilitará o vôo.
Quando estão bem desenvolvidos, o que demora pouco mais de 40 dias após a eclosão do ovo, os pais diminuem a quantidade de alimento, forçando o filhote a sair do ninho em busca de alimentação, além de proporcionarem o seu emagrecimento, o que facilitará o vôo.
Material Genético
Além de todas as medições, de bico, asa, tarso e cauda, também é retirada uma pena de cada indivíduo, para coleta de material genético. Esse material contribuirá para um futuro mapeamento genético e para o estudo de diversidade genética da espécie, o que é essencial para sua sobrevivência.
Além de todas as medições, de bico, asa, tarso e cauda, também é retirada uma pena de cada indivíduo, para coleta de material genético. Esse material contribuirá para um futuro mapeamento genético e para o estudo de diversidade genética da espécie, o que é essencial para sua sobrevivência.
Casal de "caras-roxa"
A espécie vive sempre em casal. Por vezes é possível também visualizá-los em trios, compostos pelo casal e por um filhote da última ninhada. Além de fiéis ao seu parceiro, os cara-roxa são fiéis a um ninho e, por vezes, quando ocorre do ninho cair, o casal para de se reproduzir. Outro costume da espécie é fazer deslocamentos razoavelmente grandes, especialmente no início da manhã e no final da tarde, com o fim de se alimentar.
A espécie vive sempre em casal. Por vezes é possível também visualizá-los em trios, compostos pelo casal e por um filhote da última ninhada. Além de fiéis ao seu parceiro, os cara-roxa são fiéis a um ninho e, por vezes, quando ocorre do ninho cair, o casal para de se reproduzir. Outro costume da espécie é fazer deslocamentos razoavelmente grandes, especialmente no início da manhã e no final da tarde, com o fim de se alimentar.
Papagaios e Pico-Morumbi
No final do outono e no inverno os indivíduos costumam se reunir em locais dormitórios, vindo em casais ou em bandos de diversos tamanhos (sem desformar os casais). A Ilha do Pinheiro, na Baía de Laranjeiras é um dos principais locais dormitórios, chegando, em algumas temporadas, a 3000 indivíduos se reunindo todas as noites para dormir. A revoada no por do sol já se tornou atrativo turístico da região.
No final do outono e no inverno os indivíduos costumam se reunir em locais dormitórios, vindo em casais ou em bandos de diversos tamanhos (sem desformar os casais). A Ilha do Pinheiro, na Baía de Laranjeiras é um dos principais locais dormitórios, chegando, em algumas temporadas, a 3000 indivíduos se reunindo todas as noites para dormir. A revoada no por do sol já se tornou atrativo turístico da região.
Chegando ao dormitório
Casais de papagaios-de-cara-roxa vindos do continente para a Ilha do Pinheiro ao pôr-do-sol, no período de inverno. As vocalizações se ouvem ao longe e aos poucos vão aparecendo os pequenos pontinhos pretos no céu, geralmente de dois em dois.
Casais de papagaios-de-cara-roxa vindos do continente para a Ilha do Pinheiro ao pôr-do-sol, no período de inverno. As vocalizações se ouvem ao longe e aos poucos vão aparecendo os pequenos pontinhos pretos no céu, geralmente de dois em dois.